Dia de jogo em Alvalade

Setembro 8, 2006

Ainda longe do estádio, já o murmurinho que paira no ar nos dá uma ideia do que vai acontecer naquela noite.

A confusão dos carros a tentar arranjar lugar (que se estende até Telheiras), os vendedores de cachecóis, as torres que sustentam a cobertura iluminadas no céu negro, o verde e branco nos corpos das pessoas que passam, fazem adivinhar um ambiente fervoroso dentro do estádio.

Já no recinto, é ver a porta em que temos de entrar, ir para a fila e passar o bilhete nos torniquetes com leitores a laser. É agora. Vamos entrar. Deixamos os azulejos em tons de verde e passamos pelas portas amarelo-vivo e parece que, de repente e sem avisar, alguém aumentou drasticamente o volume do som. O murmurinho que vinha aumentado à medida que nos aproximávamos do estádio transformavam-se agora numa monumental e monstruosa mistura de sons: cantos em conjunto, assobios, conversas com o parceiro do lado, o speaker! Tudo isto só é abafado e engolido pelo batido de emoções e sentidos que o jogo nos proporciona. A nossa equipa, os adversários, o sempre mal-amado àrbitro, as claques, as famílias inteiras, os telefonemas para casa a (tentar) descrever o ambiente, as conversas com o velhote da cadeira ao lado que nunca vimos na vida, mas que por ser do nosso clube, e por estar ali a participar naquela festa torna-se imediatamente num amigo de confidências. Tudo isto parece que vai deitar o estádio abaixo, mas a fé dos leões não deixa. Os medos, as esperanças, as apostas, e as discussões entre treinadores de bancada, que apostam cada cêntimo que têm em como a sua táctica e a sua equipa ganhariam todos os jogos, fazem parte do ambiente que nos aquece a alma e que nos faz sentir que fazemos parte de uma grande família, da família sportinguista.

Casa de banho para uns, palco de sonhos para outros, é a casa do Sporting, é o Estádio Alvalade XXI.


A Epidemia das bolas – com ou sem creme

Setembro 8, 2006

Estão por toda a parte. Bem, na verdade não. Estão por toda a praia. Não sei como é que há pessoas que ainda se preocupam com a gripe das aves. Isto é ainda pior. Os peritos afirmam sem dúvidas que esta é a epidemia do séc. XXI. Chamam-lhe a “Epidemia dos vendedores de bolas”. Bolas? – perguntam os mais desatentos. Sim, bolas. Bolas de Berlim. Com creme ou sem creme.

Até há pouco tempo, quando alguém ia à praia, ouvia vários sons característicos deste lugar: gaivotas a soltar onomatopeias, o barulho das ondas a rebentar, criancinhas a pedir desculpa a velhotas por lhes terem acertado com a bola, e por vezes até pessoas, que por uma qualquer razão e por força do calor adormeceram e estão, enfim… a ressonar! Mas ultimamente apareceu nas praias portuguesas um som que suplanta todos os outros. É emitido por seres humanos, muitas vezes brasileiros, que soltam frases como estas (ler com sotaque brasileiro):

“Olha a bolinha, bolinha fresquinha, bolinha de Berlim.”

“É o show de bola. Bolinha de Berlim, com creme e sem creme”

“A gostosa bola de Berlim está passando, tem vitamina M e é deliciosa.”

E lá vão eles, os “vendedores de bolas de Berlim”, sejam homens ou nmulheres, a apregoar as suas bolinhas, de geleira ao ombro, guardanapos na mão e uma bolsa na cintura com os trocos. Nunca, mas nunca, eu, nas minhas várias visitas a praias, vi com os meus dois olhos, um vendedor de bolas a pousar a geleira e a descansar. Já vi, isso sim, um a largar tudo e a fugir a sete pés, mas isso foi porque alguém chamou a polícia marítima, que, apesar de não ter apanhado os vendedores ( que não deviam ter a licença que deve ser precisa para vender as ditas bolas), confiscou as geleiras cheias de bolas, provavelmente para as comer todas mais tarde.

Mas enquanto escrevia este texto apercebi-me que esta epidemia não vai durar muito. O nº de vendedores vai continuar a aumentar até ao ponto de haver um sindicato dos vendedores de bolas, e quando houver mais vendedores que banhistas, estes vão desistir de vender bolas. E aí sim, aí poderemos preocupar-nos com a gripe das aves.


Crónicas de um podcaster adolescente – Piscinas mais Realistas

Setembro 5, 2006

Quem será que inventou a piscina? Uma pessoa peculiar, por certo, esta que decidiu escavar um buraco na terra e enchê-lo de água.

Imagino que as suas intenções eram as melhores: proporcionar a quem, por força do destino, não vive perto do mar, de um rio ou mesmo de um lago, o prazer de nadar, chapinhar, mergulhar ou o que lhe quiserem chamar. Depois veio alguém que entornou sal na piscina para a tornar mais parecida com o mar. Houve ainda quem criasse umas “maquinetas” para fazer ondas nas piscinas, e não contentes com isso, puseram areia à volta da piscina e criaram uma verdadeira praia artificial.

Mas será que estamos contentes com isso? Não! Queremos piscinas mais realistas. Queremos piscinas com derrames de petróleo que matam a fauna e a flora marinha, com tartarugas sufocadas em sacos de plástico. Queremos piscinas com descargas ilegais de resíduos perigosos, piscinas com mais lixo que grãos de areia e com oportunistas que alugam espreguiçadeiras a 30€ à hora. Será que queremos tudo isto? Claro! Se tudo isto se mudasse para as piscinas, teríamos com certeza praias muito mais agradáveis. E com certeza muitas mais praias premiadas com bandeira azul.

Depois era só esfregar a lâmpada e pedir ao génio que limpasse as piscinas e todo o mundo ficaria mais feliz.

Um pouco melodramático, uh? :-)


Estou de volta…

Agosto 23, 2006

…depois de 13 dias a bombar no Campo de Férias e a dormir numa tenda, doem-me todos os ossos e músculos e tudo o que existe dentro deste corpo, mas estou aqui de pé… aliás, sentado, à espera do regresso às aulas…


Lisboa – Algarve, com passagem pelo Deserto dos Chaparros

Julho 31, 2006

Tenho andado a escrever uns textos a que chamei “Um Lugar ao Sol” e que agora vou pôr aqui no blog.

Este texto escrevi-o quando fui de férias para uma quinta em Algoz, uma terriola para os lados de Armação de Pêra, bem no meio do Algarve. Espero que gostem!

Da última vez que fui ao Algarve, tinha que se atravessar o Alentejo. Ou como eu lhe prefiro chamar, Deserto dos Chaparros.

Enquanto atravessamos o deserto com o traseiro bem acomodado no banco do carro, seja a ouvir música, a conversar ou a dormir, damos por nós a dar graças ao ar condicionado e a agradecer a quem quer que seja que inventou as garrafas de àgua.

Por vezes olhamos instintivamente para janela, lá p’ra fora, para o mundo fora da nossa bolha refrigerada de 4 rodas, à espera de ver algo, qualquer coisa, nem sabemos bem o quê. Mas parece que o vídeo bloqueou e ficamos sempre a ver a mesma imagem: esses inconfundíveis, tradicionais, e … Alentejanos… Chaparros!

Num dia de sorte podem-se encontrar – a sarapintar a paisagem – casinhas brancas caiadas, fábricas de celulose ou o maior lago artificial da Europa. Mas esse, embora molhado também é um deserto. De pessoas, não de casas, pois dessas há lá muitas, na antiga aldeia da Luz; não têm é inquilinos, esses fugiram todos para o deserto dos chaparros. Pelos vistos, os nativos preferem os chaparros aos peixes.

Mas se queremos ver o Alentejo em todo o seu esplendor, não podemos perder os rolos. Os rolos? – perguntam vocês. Não, não são os rolos de carne, e muito menos rolos de cabelo ou de amassar. Rolos de palha, feno, ou lá o que é que aquilo é. A reluzir ao Sol (que funciona na potência máxima) parecem ouro nesta paisagem, como dizer… algo desértica…

No meio de toda esta desertidão (ou desertidade), como que a reacender a esperança nas almas dos corajosos que fazem esta viagem… hã, especial, aparecem as denominadas Estações de Serviço. Mas pra que é que servem as estações de serviço? Bem, basicamente para “esticar as pernas”, comer a tradicional “sandocha” e fazer o “xixizito”. Mas não é disso que as pessoas gostam mais nas estações de serviço, principalmente nas “desértico-chaparrenses” como é o caso a estação de Aljustrel ou a de Sines. O que as pessoas gostam mais e acham fascinante é o cantacto com a civilização no meio de um deserto. Podem-se ouvir exclamações de transeuntes menos habituados a estas andanças, tais como:

“Que maravilha! Uma máquina de café!”

“ E um frigorífico”

“Mamã, leva-me para o hospital psiquiátrico! Eu… eu… eu vi uma Coca Cola… fresca!

“Não filho, tu não estás maluco. Eu também estou a ver a Coca Cola… e uma fanta! É um milagre!”

Pois é, são todas estas coisas que transformam a viagem pró Algarve via “Deserto dos Chaparros” tão especial!